sexta-feira, 25 de maio de 2012

A filosofia de Calvino



O movimento reformista ganhou força em diferentes partes de uma Europa em intensa transformação. Na Suíça, a burguesia tinha grande influência nas cidades-república de Genebra, Zurique, Basiléia e Berna. No entanto, o poderio econômico dessa nova classe social era tolhido pelos poderes políticos preservados nas mãos dos clérigos que administravam esses mesmos centros urbanos.

Foi nesse contexto que, no início do século XVI, o padre Huldrych Zwingli começou a se aproximar das idéias defendidas por Martinho Lutero. Durante sua vida, o padre humanista teve grande atuação entre os populares que sofreram com o surto de peste bubônica que assolou as ruas de Zurique. Essa experiência vivida pelo clérigo o alertou para a reforma do catolicismo defendendo um tipo de experiência religiosa mais simples e atuante.

Por iniciativa própria, Zwingli se envolveu em um movimento reformista que defendia a predestinação absoluta e criticava a confissão religiosa nas igrejas. No ano de 1531, Zwingli tentou aproximar sua nova perspectiva religiosa dos grupos conservadores da Suíça. Sua tentativa de mudança criou uma guerra civil que provocou a morte do líder religioso. Mesmo sendo morto, seu esforço resultou na assinatura da Paz de Kappel, que permitiu a liberdade religiosa no interior da Suíça.

A onda reformista atingiu a Suíça como um todo. Na cidade de Genebra, os habitantes conseguiram destituir o poder político dos nobres e clérigos. Nessa mesma cidade, o teólogo francês João Calvino (1509 – 1564) empreendeu uma nova compreensão dos princípios religiosos defendidos por Martinho Lutero. Na obra “Instituições da religião cristã”, Calvino defendeu diversos princípios do pensamento luterano e reforçou a Teoria da Predestinação Absoluta.

Entre outras idéias, o pensamento calvinista defendia princípios morais bastante rígidos e via no trabalho e na poupança duas virtudes a serem valorizadas pelo verdadeiro cristão. A valorização do trabalho e a contenção dos lucros foram princípios que atraiam vários representantes da burguesia suíça. Em pouco tempo, Calvino conseguiu uma vertiginosa ascensão política e religiosa que o concedeu o controle da nova Igreja e do governo suíço.

Segundo os pesquisadores da temática religiosa, as idéias do calvinismo foram de suma importância para que o sistema capitalista se desenvolvesse. A idéia de trabalho árduo e acúmulo de capitais, rechaçados por essa nova denominação, impulsionaram o desenvolvimento dos negócios e dos novos empreendimentos comerciais. Nesse mesmo período, o calvinismo ganhou força na Inglaterra, na Escócia, na Holanda e na França.

FONTE:

mundoeducacao.com.br/historiageral

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O que acontece se a Grécia abandonar o euro?


São Paulo – A possível saída da Grécia da zona do euro é cercada de incertezas, mas perece ser cada vez mais iminente. Sem consenso para a formação de um novo governo após as eleições parlamentares, o clima é de apreensão. O Citi já elevou o risco de abandono da moeda pelos gregos para até 75%.

Veja, a seguir, algumas consequências possíveis, caso o país diga adeus à eurozona:

A grande dúvida que cerca a saída da Grécia da zona do euro é: como ficam os credores externos do país?  “Em caso de um calote, os bancos ficariam em situação delicadíssima. Seria um desastre financeiro nunca antes visto”, opina Manuel Enríquez Garcia, professor de economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP). 
O professor acredita, no entanto, que o Banco Central Europeu e os governos da França e da Alemanha não deixariam isso acontecer, já que o “efeito dominó” poderia fazer com que a crise se alastrasse e tomasse proporções desastrosas.
Isso significaria que ambos os países, que já carregam nas costas os custos mais pesados da manutenção do bloco, teriam que tirar mais uma vez a mão do bolso para salvar seus bancos e evitar um colapso geral do sistema financeiro.
Efeitos colaterais
Mesmo que os governos dos países mais “saudáveis” do bloco venham ao socorro dos credores da Grécia, os investidores se afastarão dos países mais “arriscados”, como Espanha, Portugal, Itália e Irlanda, buscando portos mais seguros para o seu dinheiro. O custo de empréstimo para estes países ficará ainda mais alto, o que causará ainda mais problemas para cada um deles, individualmente, e para o bloco.
“A incerteza já está levando muitos a tirar o dinheiro e ir embora”, diz Garcia. “O grande problema é que vai ficar a expectativa de quem vai ser o próximo”, opina Carlos Honorato Teixeira, professor do Programa de Estudos do Futuro da Fundação Instituto de Administração (FIA).
Para a economia grega, os efeitos imediatos serão drásticos, embora especialistas concordem que, no longo prazo, a medida permitiria a recuperação do país. 
O primeiro efeito será a volta do dracma ou a adoção de uma nova moeda que, de cara, deverá valer entre 50% a 80% a menos que o euro, na avaliação de analistas.
Corralito
A consequência imediata será uma corrida aos bancos para a retirada em euros antes que a nova moeda comece a vigorar. Para evitar o colapso do sistema bancário, o governo poderá recorrer ao “corralito”, medida estabelecida pela Argentina quando deu o calote. Para evitar as retiradas em massa, o governo congelou os fundos dos poupadores e estabeleceu limites semanais para a retirada de fundos. 
Quebradeira
Mesmo que o governo intervenha, é possível que alguns bancos não tenham fôlego para sobreviver. Empresas com dívidas em euro provavelmente não conseguirão pagar seus credores – já que o débito aumentará consideravelmente de tamanho em relação ao valor da nova moeda – e quebrarão também.
Inflação galopante
inflação galopante é outro efeito esperado dentro da economia grega. “O governo terá que agir rápido para colocar moeda no mercado, mas vai jogar dinheiro sem lastro”, explica Teixeira. 
Com excesso de dinheiro em circulação e escassez de oferta, os preços começam a subir. Com a desvalorização da moeda, os preços de produtos importados também devem disparar, o que é um problema grave já que a Grécia importa 40% dos alimentos que consome, quase todo o seu petróleo e gás natural, e grande parte dos seus medicamentos.
Ativos desvalorizados
Outra consequência será a desvalorização dos ativos gregos, já que haverá uma corrida de liquidação dos investimentos no país. “Vai ser possível comprar ilha grega a preço de banana”, brinca Teixeira.
Sem dinheiro nos cofres do governo para pagar os salários de servidores e aposentados, entre outros benefícios sociais, a população que já enfrenta taxa de desemprego de mais de 21% e agravamento da pobreza deve ficar em situação ainda mais crítica. 
A volta por cima da Grécia
Se, por um lado, a saída do euro significaria o colapso econômico e social da Grécia, em um primeiro momento, por outro pavimentaria o caminho para a volta por cima do país. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB encolheria pelo menos 10% no primeiro ano. O UBS é ainda mais agressivo em sua previsão: a economia grega poderia encolher entre 40% e 50% logo após a saída do euro. Mas depois da tempestade, viria a calmaria. Com liberdade monetária e sem o peso das medidas de austeridade impostas pelo bloco, o país ganharia folego para se reestruturar e voltar a crescer no futuro.
O fim do euro?
Não há consenso entre os analistas quanto ao futuro do euro sem os gregos. Enquanto alguns apostam que a saída da Grécia tornaria a moeda mais saudável, outros acreditam que ela não se sustentaria. Para Paul Krugman, economista e colunista do New York Times, o euro poderia se dissolver em questão de meses. 
Já para o economista Nouriel Roubini - conhecido por ter previsto a crise financeira de quatro anos atrás - a Grécia não levará consigo países como Portugal, Espanha e Itália. ”Economias sem liquidez, mas potencialmente solventes, como Itália e Espanha, necessitarão do apoio da Europa independentemente da existência da Grécia”, afirma. As perdas para o continente recairão, segundo Roubini, principalmente sobre instituições financeiras centrais da zona do euro, que teriam fôlego para superá-las.
A rebarba para o Brasil
No pior dos cenários, se a Grécia der o calote e a crise se alastrar ainda mais, os “respingos” podem recair sobre o Brasil. “A bolsa brasileira vem caindo de uma forma muito forte, como todas as outras no mundo, porque não se sabe os efeitos do que pode ocorrer na Grécia sobre o animo das pessoas”, destaca Garcia. “Cria-se um clima de extremo pessimismo e, quem tem dinheiro, fica com medo de não ter no momento seguinte. Acaba espalhando o clima de pessimismo e gera uma retração”, explica. 
FONTE:


sexta-feira, 11 de maio de 2012

A ONU e o Terrorismo


Nos anos 90, o fim da Guerra Fria levou a um novo ambiente de segurança global, marcado pelo maior foco nas guerras internas do que nas guerras entre Estados. No início do século XXI surgiram novas ameaças globais. Os ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos foram uma clara demonstração do desafio do terrorismo internacional, enquanto eventos posteriores aumentaram a preocupação com a proliferação de armas nucleares e os perigos de outras armas não convencionais.
As organizações do Sistema das Nações Unidas mobilizaram-se rapidamente em suas respectivas esferas para intensificar a luta contra o terrorismo. Em 28 de setembro o Conselho de Segurança adotou a Resolução 1373, nos termos de aplicação da Carta da ONU, para impedir o financiamento do terrorismo, criminalizar a coleta de fundos para este fim e congelar imediatamente os bens financeiros dos terroristas. Ele também estabeleceu um Comitê Antiterrorismo para supervisionar a implementação da resolução.
Os trágicos acontecimentos de 11 de setembro também revelaram o perigo potencial das armas de destruição em massa nas mãos de agentes não-estatais. O ataque poderia ter sido ainda mais devastador se os terroristas tivessem acesso a armas químicas, biológicas e nucleares. Refletindo estas preocupações, a Assembleia Geral adotou, em 2002, a Resolução 57/83, primeiro texto contendo medidas para impedir terroristas de conseguirem tais armas e seus meios de lançamento.
Em 2004, o Conselho de Segurança tomou sua primeira decisão formal sobre o perigo da proliferação de armas de destruição em massa, especialmente para os atores não-estatais. Agindo de acordo com as disposições da Carta, o Conselho adotou por unanimidade a Resolução 1540, obrigando os Estados a interromperem qualquer apoio a agente não-estatais para o desenvolvimento, aquisição, produção, posse, transporte, transferência ou uso de armas nucleares, biológicas e químicas e seus meios de entrega. Posteriormente, a Assembleia adotou a Convenção Internacional para a Supressão de Atos de Terrorismo Nuclear, aberta para assinatura em 2005.
O Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC), localizado em Viena (Áustria), conduz o esforço internacional para combater o tráfico de drogas, o crime organizado e o terrorismo internacional. Ele analisa novas tendências da criminalidade e da justiça, desenvolve bancos de dados, divulga pesquisas globais, reúne e divulga informações, faz avaliações sobre as necessidades específicas de cada país e medidas de alerta sobre, por exemplo, o aumento do terrorismo.
Em 2002, o UNODC lançou seu Projeto Global contra o Terrorismo com a provisão de assistência técnica e jurídica aos países para tornarem-se parte e implementarem os 12 instrumentos contra o terrorismo. Em janeiro de 2003, o UNODC expandiu suas atividades de cooperação técnica para fortalecer o regime legal contra o terrorismo, prestando assistência técnica e jurídica para os países em tornar-se parte e implementarem os instrumentos universais antiterrorismo.
Na esfera jurídica, a ONU e seus órgãos – como a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO), a Organização Marítima Internacional (IMO) e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) – desenvolveram uma rede de acordos internacionais que constituem os instrumentos básicos legais contra o terrorismo.
Estes instrumentos incluem convenções sobre crimes cometidos a bordo de aeronaves; apoderamento ilícito de aeronaves; atos contra a segurança de civis; crimes contra pessoas protegidas internacionalmente, incluindo diplomáticos; proteção física dos materiais nucleares; e a marcação de explosivos plásticos para fins de detecção. Além disso, eles incluem protocolos sobre atos de violência em aeroportos da aviação civil internacional, e sobre os atos contra a segurança de plataformas fixas localizadas no continente.
A Assembleia Geral também concluiu as cinco convenções seguintes: Convenção Internacional contra a Tomada de Reféns; Convenção sobre a Segurança das Nações Unidas e Pessoal Associado; Convenção Internacional para a Supressão de Atentados Terroristas; Convenção Internacional para a Supressão do Financiamento do Terrorismo; e a Convenção Internacional para a Supressão de Atos de Terrorismo Nuclear.
Infelizmente, grandes ataques terroristas continuaram após o 11 de setembro – incluindo ataques à sede da ONU em Bagdá (agosto de 2003); em quatro trens em Madrid (março de 2004); num escritório e em apartamentos em Al-Khobar, na Arábia Saudita (maio 2004); no metrô de Londres (julho de 2005); numa zona litorânea e num centro comercial em Bali (outubro de 2005); em vários locais de Mumbai (novembro 2008); nos hotéis Marriott e Ritz-Carlton em Jacarta (julho 2009), e no metrô de Moscou (março 2010), para citar apenas alguns.
Como parte do esforço internacional para conter esta onda mortal, a Assembleia Geral adotou por unanimidade e lançou, em 2006, a Estratégia Antiterrorista Global da ONU. Baseada na convicção fundamental de que o terrorismo, em todas as suas formas, é inaceitável e não pode nunca ser justificado, a Estratégia define uma série de medidas específicas para combater o terrorismo em todas suas vertentes, em nível nacional, regional e internacional.
Atos criminosos pretendidos ou calculados para provocar um estado de terror no público em geral, num grupo de pessoas ou em indivíduos para fins políticos são injustificáveis em qualquer circunstância, independentemente das considerações de ordem política, filosófica, ideológica, racial, étnica, religiosa ou de qualquer outra natureza que possam ser invocadas para justificá-los.
 Declaração sobre Medidas para Eliminar o Terrorismo Internacional
(Resolução 49/60 da Assembleia Geral, para. 3)



FONTE:

terça-feira, 24 de abril de 2012

Ciberconflito

O fim de semana foi marcado por ataques de aliados brasileiros da organização hacktivista Anonymous aos sites da Secretaria de Inteligência dos Estados Unidos e do Departamento de Justiça norte-americano. O Havittaja, um dos grupos que seguem a ideologia do Anonymous, assumiu a autoria dos ciberataques por meio de seu perfil no Twitter, com quase 19 mil seguidores. A mensagem de comemoração foi em tom bem humorado: “Brasil samba na cara da CIA”.



O primeiro alvo dos hackers, no fim do último domingo (15), foi o site da Prefeitura de Belém do Pará. O grupo que diz "não aceitar corrupção" iniciou um ataque nos moldes tradicionais do Anonymous, ou seja, por DDOS (negação de serviço dos servidores, que ficam sobrecarregados), e tirou a página do ar por algumas horas. Com o objetivo alcançado, os membros do Havittaja, então, elegeram um novo, e teoricamente mais complicado, alvo: o site oficial da CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos).

A ação foi rápida e eficaz, ganhando notoriedade em todo o mundo rapidamente. Diversos veículos de imprensa noticiaram o ciberataque e colocaram o grupo em evidência. Outros hackers festejaram o ataque e elogiaram os brasileiros nas redes sociais.

Esta queda no serviço da CIA durou pouco mais de 1 hora e meia. Mas a “festa” dos hackers ainda estava longe de acabar: “Vamos começar de novo pelo LULZ”, anunciaram no Twitter. A próxima vítima foi o Departamento de Justiça dos EUA. Mais uma vez, missão cumprida.

Esta é a primeira vez que um grupo de fora dos Estados Unidos confirma a autoria de um ciberataque contra páginas de órgãos do país. Além disso, outros seguem em andamento nesta segunda-feira (16). Tudo faz parte de uma campanha lançada no Twitter pelo#FreeAnonsWorldWide, que segue a ideologia do Anonymous. Eles pedem que hacktivistas do grupo, que foram presos em diversos países, sejam soltos.

FONTE:

techtudo.com.br/noticias

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Faces do terrorismo



É possível a nação vencer uma suposta guerra contra o terrorismo? Se for o caso, como? Se não, o que deveria fazer a administração Bush jura prevenir-se de atentados como os que sofreram Nova York e Washington?

CHOMSKY: Se quisermos refletir seriamente sobre essa questão, devemos reconhecer que em grande parte do mundo os EUA são vistos como um Estado líder do terrorismo, e por uma boa razão. Podemos considerar, por exemplo, que em 1986 os EUA foram condenados pela Corte Mundial por "uso ilegal da força" (terrorismo internacional) e então vetou uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que instava todos os países (referindo-se aos EUA) a aderir às leis internacionais. Este é apenas um, entre inúmeros exemplos.

Mas, para nos mantermos especificamente na pergunta apresentada o terrorismo alheio dirigido contra nós , sabemos muito bem como o problema deve ser tratado, caso queiramos diminuir a ameaça em vez de agravá-la, em escala crescente. Quando as bombas do IRA explodiram em Londres, ninguém falou em bombardear Belfast, ou Boston, as fontes da maior parte do apoio financeiro recebido pelo IRA. Deu-se preferência a se providenciar a captura dos criminosos, e muitos esforços foram empreendidos para enfrentar com o que sustentava o terror. Quando um edifício federal foi explodido na cidade de Oklahoma, logo houve um clamor defendendo que se bombardeasse o Oriente Médio, o que provavelmente teria acontecido se a origem do atentado estivesse lá. Mas, quando se descobriu que ela era doméstica, com articulações de milícias de extrema direita, ninguém disse nada a respeito de destruir os Estados americanos de Montana e Idaho.

Em vez disso, deflagrou-se uma caçada aos responsáveis pelo atentado, que foram presos, levados a julgamento e sentenciados, e empreenderam-se esforços para entender o ressentimento que estava por trás desses crimes, assim como para dirimir o problema. Praticamente todo crime - seja um assalto na rua ou uma atrocidade de proporções colossais - tem sua razão, e o mais usual é compreendermos que essas razões devem ser levadas em conta e que precisamos resolver o problema.

Há formas apropriadas e legais de se proceder em relação a crimes, sejam quais forem as suas proporções. E há precedentes. Um nítido exemplo é o que acabei de mencionar, um exemplo que não admite controvérsias, devido à reação das mais altas autoridades internacionais.

Nos anos 1980, a Nicarágua foi vítima de um violento ataque conduzido pelos EUA. Dezenas de milhares de pessoas morreram. O país sofreu uma substancial devastação e jamais pôde se recuperar. O ataque terrorista internacional foi acompanhado por uma arrasadora guerra econômica, que um pequeno país, isolado do mundo por uma vingativa e cruel superpotência, dificilmente poderia enfrentar, como revelaram em detalhes os principais historiadores que estudam a Nicarágua, como Thomas Walker, por exemplo. Os efeitos sobre o país foram muito mais severos do que a tragédia ocorrida recentemente em Nova York. E eles não retaliaram bombardeando Washington. Eles recorreram à Corte Mundial, que deliberou em seu favor, ordenando aos EUA que voltassem atrás e pagassem uma reparação substancial. Os EUA desdenharam da Corte Mundial e de sua sentença, respondendo com uma nova onda de intensificação dos ataques à Nicarágua. O país, então, recorreu ao Conselho de Segurança, que em conseqüência passou a discutir uma resolução determinando aos Estados que observassem as leis internacionais. Os EUA, e tão-somente eles, vetaram a resolução. A Nicarágua foi então à Assembléia-Geral, que discutiu uma resolução similar, com a oposição, por dois anos seguidos, apenas dos EUA e de Israel (tendo certa vez a adesão de El Salvador). É assim que um Estado deve proceder. Se a Nicarágua fosse suficientemente poderosa, poderia ter convocado uma outra corte criminal. Essas seriam medidas que os EUA deveriam tomar, sendo que no caso ninguém teria como bloqueá-las. É isso que todo mundo está pedindo que os EUA façam, incluindo aí seus aliados.

Convém lembrar que os governos do Oriente Médio e do Norte da África, como o governo terrorista da Argélia, um dos mais perniciosos do gênero, ficariam contentes em juntar-se aos EUA para fazer oposição às redes terroristas que os atacam. São o seu inimigo principal, mas até eles estão pedindo provas, já que querem agir dentro de moldes minimamente comprometidos com as leis internacionais. A posição do Egito é mais complexa. Eles estão inseridos no sistema original que organizou as forças islâmicas radicais, do qual a rede de bin Laden faz parte. Foram as primeiras vítimas dessa estrutura, quando Sadat foi assassinado. E têm sido as principais vítimas dela, desde então. Gostariam muito de esmagá-la, mas, segundo declaram, apenas depois que alguma prova for apresentada, indicando culpados, e em obediência à Declaração da ONU e sob a égide de seu Conselho de Segurança.

É esse o curso a seguir para reduzir a probabilidade de futuras atrocidades. Há, entretanto, um outro caminho: reagir com extrema violência e aguardar a escalada de violência que virá, dentro do mesmo ciclo, levando a futuras atrocidades similares a estas que estão instigando pessoas a pedir vingança. Conhecemos essa dinâmica.

EUA – O Único Estado Terrorista condenado pela ONU

Vale a pena lembrar – particularmente por se tratar de um dado que foi sistematicamente ocultado – que os EUA são o único país do mundo que já foi condenado  por terrorismo internacional pela Corte Mundial e que vetou uma resolução do Conselho de Segurança que exigia que eles respeitassem as leis internacionais.

Os Estados Unidos são reincidentes no terrorismo internacional. Há alguns exemplos menos gritantes, em comparação com o da Nicarágua. Todos aqui se sentiram indignados, com justiça, pelo que aconteceu no episódio da bomba na cidade de Oklahoma e, por alguns dias, as manchetes anunciavam: “Oklahoma ficou parecendo Beirute.” Mas não vi ninguém destacando que Beirute também se parecia com Beirute, e em parte é porque a administração Reagan promoveu uma explosão de bombas, em moldes terroristas, em 1985, muito parecida à de Oklahoma - um caminhão cheio de explosivos, deixado do lado de fora de uma mesquita e com um timer ajustado para explodir na hora em que as pessoas estivessem saindo, de modo a matar o maior número delas. Oitenta pessoas foram mortas e 250 feridas, a maioria mulheres e crianças, de acordo com as reportagens do Washington Post três anos mais tarde. A bomba terrorista visava um sacerdote muçulmano que não era apreciado por eles e a quem eles não conseguiram atingir. Isso não é segredo para ninguém. Não sei que nome se dá ao tipo de política que se constitui na principal causa da morte de, quem sabe? Milhões de civis no Iraque, entre eles talvez meio milhão de crianças, que é o preço que o Secretário de Estado diz que nós estamos dispostos a pagar. Há algum nome para isso?

Apoiar as atrocidades cometidas por Israel é outro bom exemplo.

Apoiar o massacre da Turquia contra as populações curdas, que recebeu da administração Clinton uma decisiva sustentação, na forma de 80% dos armamentos lá utilizados, um estímulo à escalada de atrocidades, é outro exemplo substancial. E aqui se trata de uma verdadeira atrocidade em massa, uma das mais ferozes campanhas de "limpeza étnica" e destruição genocida dos anos 1990, muito mal divulgada devido à proeminente responsabilidade dos EUA no caso - e quando mencionada, é tomada como uma demonstração de falta de polidez, logo descartada como uma pequena "falha" em nossa dedicada cruzada pelo "fim da desumanidade" cometida pelo mundo afora.

Ou vamos falar da destruição das instalações farmacêuticas de Al-Shifa, no Sudão, uma breve nota de pé de página no histórico do Estado de terror, logo esquecida. Qual teria sido a nossa reação se bin Laden tivesse destruído metade dos suprimentos farmacêuticos dos EUA, bem como as instalações indispensáveis para repô-los? Podemos imaginar facilmente, apesar de a comparação ser injusta: as conseqüências foram muito mais graves no Sudão. Deixando isso de lado, se os EUA ou Israel, ou a Inglaterra, fossem o alvo de tal atrocidade, que reação teriam? No nosso caso, dizemos: "Ora, que pena, uma pequena falha nossa, vamos para o próximo item, e que as vítimas se danem.” Mas as demais pessoas no mundo não reagem dessa forma. Quando bin Laden fala desses atentados, ele toca numa corda bastante sensível, mesmo para aqueles que o desprezam e temem. E, infelizmente, o mesmo vale para todo o restante de sua retórica.

Apesar de ser uma mera nota de pé de página, o caso do Sudão é bastante instrutivo. Um aspecto interessante é a reação que ocorre quando alguém se atreve a mencioná-lo. Eu já o fiz algumas vezes e tornarei a fazer, em resposta a questões levantadas por jornalistas, logo após os atentados de 11 de setembro. Observei na ocasião que o número de vítimas do "crime horrendo" de 11 de setembro, cometido com "absoluta e medonha crueldade" (citando Robert Fisk), poderia ser comparado às conseqüências do bombardeio que Clinton dirigiu contra as instalações de Al-Shifa, em agosto de 1998. A conclusão, muito plausível, desencadeou uma reação extraordinária, que ocupou muitos jornais e web.cites.com condenações exaltadas, e bastante empoladas, que vou ignorar. O único aspecto importante é que esta simples frase - que, num exame mais próximo, parece até pouco enfática - foi considerada por alguns comentaristas como totalmente ultrajante. É difícil escapar da conclusão de que, em um nível mais profundo, muito embora possam negá-lo para si mesmos, eles encaram seus crimes contra os mais fracos como tão normais quanto o ar que respiram.

FONTE:

www.culturabrasil.org