sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Kant



Na Crítica da Razão Pura, o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) tinha um problema a resolver, que dizia respeito à seguinte questão: como posso obter um conhecimento seguro e verdadeiro sobre as coisas do mundo? A resposta de Kant iria mudar o rumo da Filosofia Ocidental.

Duas escolas filosóficas, tradicionalmente, respondiam de formas diversas ao problema do conhecimento. Para os filósofos racionalistas (Platão, Descartes, Leibniz eEspinosa), todo conhecimento provém da razão, enquanto que, para os empiristas (Aristóteles, Hobbes, Locke, Berkeley eHume), ao contrário, somente os dados da experiência sensível forneceriam as bases para o conhecimento humano.

Tanto em um como em outro caso, surgem obstáculos. A razão especulativa, na medida em que deixa de validar suas investigações em testes práticos, torna-se dogmática. Já o empirismo encontra oposição noceticismo, que argumenta que a Natureza é o reino do contingente e, por esta razão, não pode ser fonte de conhecimento universal.

O filósofo inglês David Hume (1711-1776), cuja obra Kant afirma tê-lo acordado do "sono dogmático", colocou sob suspeita o princípio de causalidade, que determina que, dado uma causa x, tem-se um efeito y. Por exemplo, tenho uma pedra em minha mão e a solto de certa altura (causa), tendo como conseqüência sua queda no chão (efeito). 

Segundo Hume, não existe nada na causa (solto a pedra da mão) que contenha a relação objetiva de seu efeito (a queda no solo). Por mais vezes que eu repita a experiência, nada no mundo me dará a certeza de que a pedra cairá e não levitará, por exemplo. Portanto, conclui o filósofo inglês, a causalidade não está no mundo, mas é produto de nossos hábitos, ou seja, de tantas vezes ver a pedra cair ao ser solta, acreditamos que haja uma relação causal nos objetos, quando não passa de uma espécie de condicionamento psicológico.


A priori, a posteriori, juízo analítico e juízo sintético

Kant também vai se voltar para o sujeito em sua réplica ao ceticismo humeano, mas revestido de um caráter lógico e transcendental (e não psicológico, como em Hume). Antes de analisar a resposta de Kant, vamos ver como ele a formula a questão nos conceitos de a priori, a posteriori,analítico e sintético.

Um conhecimento que seja totalmente independente dos sentidos é chamado a priori. São, por exemplo, equações matemáticas, que posso fazer mentalmente sem me apoiar em qualquer evidência material. Um conhecimento que possui sua fonte na experiência é dado a posteriori, como as leis da física clássica, que necessitam de testes práticos para serem comprovadas.

Quando emito um juízo em que o predicado está contido no sujeito, ele é chamado juízo analítico. Por exemplo, quando digo "Azul é uma cor", o predicado "cor" já é uma qualidade do sujeito "azul" e a informação, por isso, é redundante. Mas quando faço um juízo em que um predicado é acrescentado ao sujeito, ele é chamado sintético. Por exemplo, na frase "A cadeira de minha sala é azul", acrescento ao sujeito "cadeira de minha sala" o predicado "azul" (afinal, ela poderia ser verde, vermelha, etc.). É uma informação nova, pois você poderia imaginar que a cadeira fosse de qualquer outra cor.

Todos os juízos da experiência são sintéticos, uma vez que, para obter um juízo analítico, não é preciso sair do próprio conceito, isto é, recorrer à experiência (não preciso sair de "azul" para saber que é uma cor, mas preciso ver a "cadeira" para saber de que cor ela é).

Agora podemos entender a questão central da Crítica da Razão Pura, que é "Como são possíveis os juízos sintéticos a priori?". Ou seja, como podemos ter um conhecimento a priori de questões de fato, de coisas do mundo? Em outros termos, como posso, observando um fato A, dizer algo a respeito de um fato B, uma vez que somente tenho a experiência deste fato A? Para voltar ao exemplo de Hume, como, tendo uma pedra em minha mão (fato A), antes mesmo de soltá-la sei que, ao soltá-la, ela irá cair no solo (fato B)? (Lembrando que, para Hume, não há na Natureza nada que demonstre a relação causal entre A e B.)

Formulado ainda de outra maneira: como posso, ao observar fatos particulares (uma pedra que cai), tirar daí uma regra de caráter universal (a lei da gravidade), que seja aplicada a todos outros fatos da mesma natureza?


Sujeito transcendental

Kant chamou de "revolução copernicana" sua resposta ao problema do conhecimento. O astrônomo Nicolau Copérnico (1473-1543) formulou a teoria heliocêntrica - a teoria de que os planetas giravam em torno do Sol - para substituir o modelo antigo, de Aristóteles e Ptolomeu, em que a Terra ocupava o centro do universo, o que era mais coerente com os dogmas da Igreja Católica.

Como pode ser constatado pela observação direta, o Sol se "levanta" e se "põe" todos os dias, o que tornava óbvio, aos antigos, que a Terra estava fixa e que os astros giravam em torno dela. Copérnico demonstrou que este movimento é ilusório, porque, na verdade, a Terra é que gira em torno do Sol.

Kant propôs inversão semelhante em filosofia. Até então, as teorias consistiam em adequar a razão humana aos objetos, que eram, por assim dizer, o "centro de gravidade" do conhecimento. Kant propôs o contrário: os objetos, a partir daí, teriam que se regular pelo sujeito, que seria o depositário das formas do conhecimento. As leis não estariam nas coisas do mundo, mas no próprio homem; seriam faculdades espontâneas de suanatureza transcendental. Como Kant afirma no prefácio da segunda edição da Crítica da Razão Pura:

"Até agora se supôs que todo nosso conhecimento tinha que se regular pelos objetos; porém todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos, através do que ampliaria o nosso conhecimento, fracassaram sob esta pressuposição. Por isso tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas da Metafísica admitindo que os objetos têm que se regular pelo nosso conhecimento, o que concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos objetos que deve estabelecer algo sobre os mesmos antes de nos serem dados."

O que Kant quer dizer é que o sujeito possui as condições de possibilidade de conhecer qualquer coisa. Ele possui as regras pela quais os objetos podem ser reconhecidos. Não adianta buscar essas regras no mundo exterior, pois se cairia no problema de Hume. O mundo não tem sentido a não ser que o homem dê algum sentido a ele. O que conhecemos, então, é profundamente marcado pela maneira - humana - pela qual conhecemos. 

O computador no qual escrevo, a janela do escritório que me permite ver todas as coisas do mundo, tudo isso é matéria de conhecimento não porque exista um Deus que me faculte entender as leis dos objetos por meio da razão (como no caso de filósofos racionalistas) ou porque estes objetos sejam imprimidos em minha mente pela percepção (empirismo), mas porque eles são capturados por formas lógicas no sujeito.


Coisa-em-si

Mas ao voltar o foco para o sujeito que conhece, que "constrói" o mundo, é bloqueado todo pretenso acesso à essência dos objetos do mundo. Só temos acesso às coisas enquanto fenômenos para uma consciência. O que a realidade é, em si mesma, o que Kant chama de coisa-em-si, não é matéria de conhecimento humano, sendo, portanto, incognoscível (aquilo que não pode ser conhecido).

A coisa-em-si não pode ser conhecida mas pode ser pensada, desde que seja contraditório (conhecer, em Kant, diz respeito ao que é possível de ser objeto da experiência). 

Três objetos de estudo da metafísica podem ser pensados mas não conhecidos: Deus, a imortalidade da alma e a liberdade. Deus e a alma não podem ser conhecidos porque não aparecem como fenômenos no espaço e no tempo. A liberdade, porque contraria o princípio de causalidade: liberdade é aquilo que não tem causa, e o que é absolutamente livre não pode ser matéria de conhecimento. São, no entanto, postulados para a ética de Kant, da qual não trataremos neste artigo.

A filosofia crítica de Kant consiste, desta forma, em impor à razão os limites da experiência possível. O filósofo alemão pretende, com isso, fornecer rigor metodológico à metafísica, livrando-a de seu caráter dogmático e trazendo-a para o rumo seguro da ciência. Este método que analisa as possibilidades do conhecimento a priori do sujeito, dentro dos limites da experiência, é chamado de transcendental.

Fonte:
http://educacao.uol.com.br/filosofia

quinta-feira, 19 de julho de 2012

5 frases de filósofos que nunca foram ditas

Ana Carolina Prado
Colaboraram: Otavio Cohen e Tânia Vinhas



A arte de citar filósofos famosos para parecer mais inteligente dar peso e seriedade ao discurso é antiga e não se restringe a políticos ou apresentadores de TV. Afinal, como dizia Platão, “A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento”. O problema é que algumas frases que ficaram famosas nas bocas e nos tweets das multidões, na verdade, nunca foram ditas.
E não adianta se gabar que a aquela citação que você publicou no Facebook está certa. “Tentar expressar as idéias de um filósofo através de uma única frase sua já é um erro em si, mesmo estando correta a citação. Elas muitas vezes são tiradas de contexto e induzem ao erro”, aponta o professor de filosofia do curso Anglo Gianpaolo Dorigo.

1- “Só os mortos conhecem o fim da guerra”, atribuída a Platão
O culpado: o comandante militar norte-americano Douglas MacArthur, filho de um dos grandes heróis da Guerra da Secessão.

Em um discurso nos anos 60, o militar atribuiu a frase a Platão. No entanto, as palavras foram escritas pelo filósofo, poeta e ensaísta espanhol George Santayana no livro “Solilóquios na Inglaterra”, de 1922. Pouco após o fim da Primeira Guerra Mundial, Santayana escreveu: “E os pobres coitados acham que estão a salvo! Eles acham que a guerra acabou! Apenas os mortos viram o fim da guerra”. Nada a ver com o nosso filosofighter grego. “A frase não me parece nem vagamente adequada à expressão das principais ideias do discípulo de Sócrates”, diz Gianpaolo Dorigo.
2- “Creio porque é absurdo”, atribuída a Santo Agostinho
O culpado: a mania de tentar resumir o pensamento dos filósofos em uma frase.
Antes de ser colocada na boca de Agostinho de Hipona, a frase havia sido atribuída a Tertuliano, autor romano das primeiras fases do Cristianismo. Esse caso curioso de reatribuição de citação tem a ver com a valorização da fé expressa pelos dois pensadores cristãos, que declaravam crer em coisas que parecem incríveis, como a ressurreição de Cristo. O problema é que tentaram resumir as ideias de ambos através de uma sentença curta que não aparece explicitamente nas obras de nenhum deles. O mais próximo que Tertuliano chegou disso foi quando disse “E o Filho de Deus morreu, o que é crível justamente por ser inepto; e ressuscitou do sepulcro, o que é certo porque é impossível”.
3- “Deus está morto”, atribuída a Nietzsche
O culpado: a descontextualização.
Aqui, o problema não é a frase, mas o conceito atribuído a Nietzsche. O mal-humorado filosofighter de fato diz isso: a frase apareceu pela primeira vez em “A gaia ciência” e está também em sua famosa obra “Assim falou Zaratustra”. Mas as palavras têm sido muito mal interpretadas. Nietzsche não se referia à morte literal de Deus nem à morte de Jesus Cristo, e essa não era uma simples declaração de ateísmo. Logo em seguida, o filósofo completa: “Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós!”. Ele queria dizer que a humanidade havia deixado de ter Deus como força ordenadora do mundo e fonte de valores. Com a morte de Deus, ele metaforiza a morte dos valores sagrados para os homens. Assim, eles deixariam de crer em quaisquer valores impostos.
Esse tipo de mal entendido é comum quando se fala em Nietzsche. “O seu hábito de efetivamente utilizar máximas e aforismos agressivos em seus livros acabou por transformá-lo em um pensador muito citado e pouco compreendido”, explica Gianpaolo. “E suas máximas, mesmo quando citadas corretamente, muitas vezes se perdem: o que para o pensador alemão era sobretudo uma provocação, para muitos se torna uma verdade incontestável e guia para a vida, no mais puro e estilo autoajuda”, completa.
4- “Os fins justificam os meios”, atribuída a Maquiavel
O culpado: a tentativa de simplificar a ideia de “O Príncipe”.
A mais famosa frase atribuída a Nicolau Maquiavel nunca foi dita por ele. Segundo o professor Gianpaolo, trata-se de uma tentativa de condensar a ideia de sua obra “O Príncipe”, em especial do capítulo 18, em que aparecem os trechos: “…um príncipe  (…) não pode observar todas as coisas pelas quais os homens são chamados de bons, precisando muitas vezes, para preservar o Estado, operar contra a caridade, a fé, a humanidade, a religião. Aqui, “preservar o Estado” refere-se aos fins e “operar contra a caridade etc…” é interpretado como utilizar quaisquer meios. No mesmo capítulo, Maquiavel ainda diz: “nas ações de todos os homens, especialmente nas dos príncipes, quando não há juiz a quem apelar, o que vale é o resultado final”. É uma simplificação bem empobrecedora.
5- “Se Deus não existe, tudo é permitido”, atribuída a Dostoiévski
O culpado: Jean-Paul Sartre.
Desta vez, um de nossos Filosofighters foi o culpado, e não a vítima, de uma atribuição incorreta. No texto “O existencialismo é um humanismo”, Sartre diz: “Dostoiévski escreveu: ‘Se Deus não existisse, tudo seria permitido’. Eis o ponto de partida do existencialismo”. O escritor russo de fato inspirou os existencialistas, mas ele nunca disse isso. O mais próximo disso, que está em Os Irmãos Karamazov, é: “[...] é permitido a todo indivíduo que tenha consciência da verdade regularizar sua vida como bem entender, de acordo com os novos princípios. Neste sentido, tudo é permitido [...] Como Deus e a imortalidade não existem, é permitido ao homem novo tornar-se um homem-deus, seja ele o único no mundo a viver assim”.
Bônus: “Se não têm pão, que comam brioches”, atribuída a Maria Antonieta
O culpado: a autobiografia de Rousseau.
A famosa frase foi usada como argumento contra Maria Antonieta durante a Revolução Francesa. A rainha a teria dito durante sua coroação, em 1774, quando soube que o povo das províncias francesas não tinha pão para comer. Só que não. A história veio de uma passagem na autobiografia “Confissões”, de Jean-Jacques Rousseau, que diz: “Recordo-me de uma grande princesa a quem se dizia que os camponeses não tinham pão, e que respondeu: ‘Pois que comam brioche’”. Os registros históricos disponíveis, entretanto, mostram que, na época de sua coroação, Maria Antonieta se preocupava com a situação dos pobres. Numa de suas cartas à mãe, ela chega até a criticar o alto preço do pão. Especula-se que Rousseau na verdade se referia a Maria Teresa de Espanha.
Se você quer homenagear seu pensador preferido, pense bem. Em tempos de internet, essas frases podem acabar se disseminando sem controle, espalhando também uma imagem errada do seu “homenageado”.
FONTE: super.abril.com.br







sexta-feira, 25 de maio de 2012

A filosofia de Calvino



O movimento reformista ganhou força em diferentes partes de uma Europa em intensa transformação. Na Suíça, a burguesia tinha grande influência nas cidades-república de Genebra, Zurique, Basiléia e Berna. No entanto, o poderio econômico dessa nova classe social era tolhido pelos poderes políticos preservados nas mãos dos clérigos que administravam esses mesmos centros urbanos.

Foi nesse contexto que, no início do século XVI, o padre Huldrych Zwingli começou a se aproximar das idéias defendidas por Martinho Lutero. Durante sua vida, o padre humanista teve grande atuação entre os populares que sofreram com o surto de peste bubônica que assolou as ruas de Zurique. Essa experiência vivida pelo clérigo o alertou para a reforma do catolicismo defendendo um tipo de experiência religiosa mais simples e atuante.

Por iniciativa própria, Zwingli se envolveu em um movimento reformista que defendia a predestinação absoluta e criticava a confissão religiosa nas igrejas. No ano de 1531, Zwingli tentou aproximar sua nova perspectiva religiosa dos grupos conservadores da Suíça. Sua tentativa de mudança criou uma guerra civil que provocou a morte do líder religioso. Mesmo sendo morto, seu esforço resultou na assinatura da Paz de Kappel, que permitiu a liberdade religiosa no interior da Suíça.

A onda reformista atingiu a Suíça como um todo. Na cidade de Genebra, os habitantes conseguiram destituir o poder político dos nobres e clérigos. Nessa mesma cidade, o teólogo francês João Calvino (1509 – 1564) empreendeu uma nova compreensão dos princípios religiosos defendidos por Martinho Lutero. Na obra “Instituições da religião cristã”, Calvino defendeu diversos princípios do pensamento luterano e reforçou a Teoria da Predestinação Absoluta.

Entre outras idéias, o pensamento calvinista defendia princípios morais bastante rígidos e via no trabalho e na poupança duas virtudes a serem valorizadas pelo verdadeiro cristão. A valorização do trabalho e a contenção dos lucros foram princípios que atraiam vários representantes da burguesia suíça. Em pouco tempo, Calvino conseguiu uma vertiginosa ascensão política e religiosa que o concedeu o controle da nova Igreja e do governo suíço.

Segundo os pesquisadores da temática religiosa, as idéias do calvinismo foram de suma importância para que o sistema capitalista se desenvolvesse. A idéia de trabalho árduo e acúmulo de capitais, rechaçados por essa nova denominação, impulsionaram o desenvolvimento dos negócios e dos novos empreendimentos comerciais. Nesse mesmo período, o calvinismo ganhou força na Inglaterra, na Escócia, na Holanda e na França.

FONTE:

mundoeducacao.com.br/historiageral

sexta-feira, 18 de maio de 2012

O que acontece se a Grécia abandonar o euro?


São Paulo – A possível saída da Grécia da zona do euro é cercada de incertezas, mas perece ser cada vez mais iminente. Sem consenso para a formação de um novo governo após as eleições parlamentares, o clima é de apreensão. O Citi já elevou o risco de abandono da moeda pelos gregos para até 75%.

Veja, a seguir, algumas consequências possíveis, caso o país diga adeus à eurozona:

A grande dúvida que cerca a saída da Grécia da zona do euro é: como ficam os credores externos do país?  “Em caso de um calote, os bancos ficariam em situação delicadíssima. Seria um desastre financeiro nunca antes visto”, opina Manuel Enríquez Garcia, professor de economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP). 
O professor acredita, no entanto, que o Banco Central Europeu e os governos da França e da Alemanha não deixariam isso acontecer, já que o “efeito dominó” poderia fazer com que a crise se alastrasse e tomasse proporções desastrosas.
Isso significaria que ambos os países, que já carregam nas costas os custos mais pesados da manutenção do bloco, teriam que tirar mais uma vez a mão do bolso para salvar seus bancos e evitar um colapso geral do sistema financeiro.
Efeitos colaterais
Mesmo que os governos dos países mais “saudáveis” do bloco venham ao socorro dos credores da Grécia, os investidores se afastarão dos países mais “arriscados”, como Espanha, Portugal, Itália e Irlanda, buscando portos mais seguros para o seu dinheiro. O custo de empréstimo para estes países ficará ainda mais alto, o que causará ainda mais problemas para cada um deles, individualmente, e para o bloco.
“A incerteza já está levando muitos a tirar o dinheiro e ir embora”, diz Garcia. “O grande problema é que vai ficar a expectativa de quem vai ser o próximo”, opina Carlos Honorato Teixeira, professor do Programa de Estudos do Futuro da Fundação Instituto de Administração (FIA).
Para a economia grega, os efeitos imediatos serão drásticos, embora especialistas concordem que, no longo prazo, a medida permitiria a recuperação do país. 
O primeiro efeito será a volta do dracma ou a adoção de uma nova moeda que, de cara, deverá valer entre 50% a 80% a menos que o euro, na avaliação de analistas.
Corralito
A consequência imediata será uma corrida aos bancos para a retirada em euros antes que a nova moeda comece a vigorar. Para evitar o colapso do sistema bancário, o governo poderá recorrer ao “corralito”, medida estabelecida pela Argentina quando deu o calote. Para evitar as retiradas em massa, o governo congelou os fundos dos poupadores e estabeleceu limites semanais para a retirada de fundos. 
Quebradeira
Mesmo que o governo intervenha, é possível que alguns bancos não tenham fôlego para sobreviver. Empresas com dívidas em euro provavelmente não conseguirão pagar seus credores – já que o débito aumentará consideravelmente de tamanho em relação ao valor da nova moeda – e quebrarão também.
Inflação galopante
inflação galopante é outro efeito esperado dentro da economia grega. “O governo terá que agir rápido para colocar moeda no mercado, mas vai jogar dinheiro sem lastro”, explica Teixeira. 
Com excesso de dinheiro em circulação e escassez de oferta, os preços começam a subir. Com a desvalorização da moeda, os preços de produtos importados também devem disparar, o que é um problema grave já que a Grécia importa 40% dos alimentos que consome, quase todo o seu petróleo e gás natural, e grande parte dos seus medicamentos.
Ativos desvalorizados
Outra consequência será a desvalorização dos ativos gregos, já que haverá uma corrida de liquidação dos investimentos no país. “Vai ser possível comprar ilha grega a preço de banana”, brinca Teixeira.
Sem dinheiro nos cofres do governo para pagar os salários de servidores e aposentados, entre outros benefícios sociais, a população que já enfrenta taxa de desemprego de mais de 21% e agravamento da pobreza deve ficar em situação ainda mais crítica. 
A volta por cima da Grécia
Se, por um lado, a saída do euro significaria o colapso econômico e social da Grécia, em um primeiro momento, por outro pavimentaria o caminho para a volta por cima do país. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o PIB encolheria pelo menos 10% no primeiro ano. O UBS é ainda mais agressivo em sua previsão: a economia grega poderia encolher entre 40% e 50% logo após a saída do euro. Mas depois da tempestade, viria a calmaria. Com liberdade monetária e sem o peso das medidas de austeridade impostas pelo bloco, o país ganharia folego para se reestruturar e voltar a crescer no futuro.
O fim do euro?
Não há consenso entre os analistas quanto ao futuro do euro sem os gregos. Enquanto alguns apostam que a saída da Grécia tornaria a moeda mais saudável, outros acreditam que ela não se sustentaria. Para Paul Krugman, economista e colunista do New York Times, o euro poderia se dissolver em questão de meses. 
Já para o economista Nouriel Roubini - conhecido por ter previsto a crise financeira de quatro anos atrás - a Grécia não levará consigo países como Portugal, Espanha e Itália. ”Economias sem liquidez, mas potencialmente solventes, como Itália e Espanha, necessitarão do apoio da Europa independentemente da existência da Grécia”, afirma. As perdas para o continente recairão, segundo Roubini, principalmente sobre instituições financeiras centrais da zona do euro, que teriam fôlego para superá-las.
A rebarba para o Brasil
No pior dos cenários, se a Grécia der o calote e a crise se alastrar ainda mais, os “respingos” podem recair sobre o Brasil. “A bolsa brasileira vem caindo de uma forma muito forte, como todas as outras no mundo, porque não se sabe os efeitos do que pode ocorrer na Grécia sobre o animo das pessoas”, destaca Garcia. “Cria-se um clima de extremo pessimismo e, quem tem dinheiro, fica com medo de não ter no momento seguinte. Acaba espalhando o clima de pessimismo e gera uma retração”, explica. 
FONTE: