De fato, como escreveu Matheus Pichonelli para a Carta Capital, a
cena do Capitão Nascimento, com o coturno na garganta do traficante “Baiano”,
entregando a escopeta nas mãos do Soldado Mathias estabelecendo a execução do
bandido, teve como efeito a euforia generalizada nas salas de cinema espalhadas
pelo país. Como num estádio lotado em final de campeonato, “houve quem se
levantasse e aplaudisse a cena de pé, algo inusitado para uma sessão de cinema”.
O mesmo país que se colocava de pé pelos direitos humanos para humanos direitos
estava de braços cruzados.
O diretor da produção cinematográfica, José Padilha, precisou “desenhar”,
em Tropa de Elite 2, “que
aquela escopeta estava voltada, na verdade, para o rosto do povo brasileiro.
Entretanto, parece que mesmo diante do “desenho” o povo se demonstrou incapaz
de refletir e “entender que a tortura, os sacos plásticos e a justiça por
determinação própria eram a condenação, e não a redenção, de um país de
tragédias cotidianas”. Nas duas produções, todos estavam, de alguma forma,
envolvidos na criminalidade – corruptos e corruptores, produtores e
consumidores, eleitos e eleitores, eu e você – mas só alguns eram executados.
O saco de tortura, a bofetada na cara, o tiro (pra matar ou
intimidar); todos são símbolos da violação dos nossos direitos no cotidiano.
Respire esse oxigênio cada vez mais irrespirável, transite pelas vias de
trânsito intransitáveis, vá às compras e seja assaltado (pelos bandidos de
ofício, ou pelos disfarçados), se alimente desse “lixo” caro que é colocado nas
prateleiras dos supermercados. Seja programado pela mídia que ao invés de
informar, tem mais compromisso com o deformar. O nome disso é tortura!
“O apelo à
tortura como consequência da segurança é, portanto, a confissão e a aceitação
de uma incapacidade ancestral.” Em vez de segurança, o que ela produz é pânico:
aceitamos que as autoridades se comportem não como agentes públicos a nos
proteger de símios ensandecidos com ossos na mão, mas exatamente igual aos
animais retratados no filme e dentro da nossa rotina.
“Nesses
termos, o estado completo de vulnerabilidade está criado (precisamente em 14 de
julho de 2013, foi a vez de Amarildo). Amanhã pode ser eu. Ou você. Enquanto
aplaudimos as soluções arbitrárias, que aniquilam tanto o bandido como o
inocente, é a sorte, e não a lei, o elemento a impedir que um animal armado
(fardado ou não) com arma na mão, pelo simples fato de acordar num belo dia de
mau humor, coloque nossas cabeças em um saco plástico e nos sufoque até a
morte.” Eu me refiro ao Estado, enquanto produtor de “malignidade”, não aos
cidadãos que fazem parte dele. Eu me refiro ao empresário “predador”, não aos
solidários. Eu me refiro ao comunicador imbecil (sem aspas), não ao comunicador
social. Eu me refiro ao vândalo, não ao cidadão que luta pelos seus direitos. Estou falando de mim e estou falando de você!
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ResponderExcluirA história e o cinema produz grandes observações. O tema de Tropa de Elite é polêmico e possui uma grande faceta crítica! Mas aí está o problema: um ponto positivo para uma crítica, é a que possibilita enxergar além do nosso tempo breve, causando aquela sensação engraçada: ''Poxa, eu nunca parei pra pensar por esse lado.'' E quando isso acontece, as coisas começam fazer sentido. Mas e quando isso não acontece? Quando todos aqueles que assistem ao filme, o veem como apenas um divertimento e só mais um filme para por no ''Filmow'' ou na prateleira do seu quarto? Vamos precisar de mais um Tropa de Elite 3 para repetir o mesmo discurso, para abrir os olhos do povo?
ResponderExcluirMuito massa o texto cara, achei massa ideia de n ressaltar a criminalidade do dia a dia que é a que todos falam, mas sim mostrar o outro lado daqueles que roubam, aqueles que roubam o seu dinheiro antes mesmo de vc sacar ele no caixa e da alienação, o 3º parágrafo é o mais massa, parabéns ; )
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