segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Sérgio Buarque de Holanda - Raízes do Brasil


Publicado em 1936, tendo sido reeditado e revisado em 1947 e 1955, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, permanece ainda hoje como livro de fundamental importância para a historiografia e as ciências sociais brasileiras. Trata-se de uma obra que visa à compreensão da formação da nossa sociedade, o que exige, conseqüentemente, uma análise histórica profunda do contexto colonial estabelecido pelos lusitanos a partir do século XVI na América. Mas em que medida Raízestornou-se uma leitura obrigatória para todos os historiadores que têm por objeto o Brasil? De que metodologia Sérgio Buarque se utilizou para arquitetar conceitos e teorias que sobreviveriam até hoje por sua veracidade e vitalidade? Quais são esses conceitos? Tais questões se impõem, e nosso objetivo aqui é respondê-las na medida em que tratamos dos assuntos mais relevantes da obra – e o recorte, em sim, já é uma tarefa difícil, levando-se em conta a quantidade de preciosidades contidas no livro.
A metáfora das “raízes” concernente ao próprio título já se insinua querendo demonstrar que o intuito do autor é desvendar e analisar o que veio a se tornar a sociedade brasileira. É o estudo do princípio, da gênese, das “raízes” fincadas na Europa e que futuramente gerarão frutos na América. Não há caminho melhor, portanto, para começar um ensaio que busca definir o começo de toda a nossa estrutura social do que voltando a atenção para o continente europeu, mais especificamente o mundo ibérico. O primeiro capítulo de Raízes do Brasil, “Fronteiras da Europa”, consiste na busca pela caracterização da velha civilização européia, na medida em que há uma tentativa de implantar sua cultura nas origens da sociedade colonial do Novo Mundo no início dos Tempos Modernos. O Brasil é visto por Sérgio Buarque, nesse sentido, como resultado da tradição viva da Península Ibérica – num primeiro momento tratada de forma geral, com a caracterização de uma cultura que lhe é própria, para posteriormente fragmentá-la e estabelecer diferenças entre Portugal e Espanha, principalmente no capítulo “O Semeador e o Ladrilhador” –, possuindo uma cultura adaptada da Europa.
Essa cultura ibérica estaria pautada em muitos aspectos, dos quais a frouxidão da estrutura social e a falta de hierarquia organizada regeriam talvez a avalanche de outras características. Sérgio Buarque argumenta no sentido de demonstrar que “toda hierarquia funda-se necessariamente em privilégios” (p. 35), que acarreta a injustiça social. No entanto, a nobreza lusitana não é rigorosa nesse sentido, a ponto de ser a separação de classes sociais quase inexistente no Estado português (na medida em que nos outros países a mobilidade social é praticamente impensável). Tanto os portugueses quanto os espanhóis, no cenário europeu, representam uma peculiaridade quando se trata de mobilidade social, sendo as hierarquias e os privilégios considerados uma irracionalidade, na visão de Sérgio Buarque. Com o intuito de perceber atualidade nos argumentos de Sérgio Buarque sobre mobilidade social e traços ibéricos na América, observemos dois autores atuais – querendo evitar qualquer tipo de anacronismo, visto que a utilização de tais historiadores visa a uma melhor compreensão de Raízes do Brasil, apreendendo esta obra como instigante e relevante ainda hoje.
O estudo de Bernard Vincent e Ruiz Ibañez demonstra claramente essas peculiaridades ibéricas, compreendidos na sociedade hispânica dos séculos XVI e XVII[1]. Nesse sentido a ascensão social pode ser alcançada se se recorre ao trabalho, sendo este considerado um defeito mecânico, pois a fortuna proveniente dele não foi conseguida através do sangue de linhagem nobiliárquica, mas de uma atividade considerada humilhante. Sendo assim, indivíduos que enriquecem através de “defeitos mecânicos” procuram suprimir sua condição plebéia, que o sangue não-nobre denuncia, através de falsificações genealógicas ou subornos, por exemplo. Vê-se bem o conceito de “virtudes essencialmente inativas” contido em Raízes na obra de Ibañez e Vincent, na medida em que a ociosidade é considerada digna, uma condição da nobreza de sangue, mas que pode ser alcançada por outras vias, o que leva a crer que a mobilidade social se faz presente nessa sociedade.
Stuart Schwartz, em contrapartida, traz sua perspectiva em relação à sociedade colonial da América Portuguesa, numa leitura que pode reforçar ainda mais a idéia exposta por Sérgio Buarque de que havia frouxidão da estrutura social no seio do mundo ibérico, especificamente no caso português[2]. O Estado lusitano endurece a questão de riqueza, sendo o prestígio associado à aparência (traço que, é bom frisar, a maioria dos Estados absolutistas carrega em seu bojo), trazendo à tona uma espécie de sociedade litúrgica. A nobreza de sangue possuía uma hereditariedade proveniente de famílias reais, e esse sangue era uma espécie de fator avaliador, funcionando como mecanismo de separação dos nobres de origem plebéia e dos nobres de sangue. A ociosidade nobiliárquica era um alvo a ser atingido – e a própria colonização da América surgia como uma oportunidade, o que fará surgir a nobreza de terra –, mas o trabalho seria a forma com que se alcançaria a riqueza. Percebe-se, portanto, que a estrutura social ibérica não era fixa e o mérito e o êxito pessoais podiam trazer benefícios – mesmo que o sangue pesasse quando se tratava de prestígio.
No segundo capítulo de Raízes do Brasil podemos apreender a herança da corrente weberiana na construção da dicotomia trabalhador-aventureiro, na medida em que Sérgio Buarque trabalha com o conceito de tipo ideal[3]. Nesse sentido, como argumenta o próprio autor, ambos participam de muitas combinações e, em estado puro, nem o
Max Weber - sociólogo que, com o conceito de "tipo ideal", forneceu a base teórica de "Raízes do Brasil"
trabalhador nem o aventureiro possuem existência real, somente no mundo das idéias, servindo como mecanismos de comparação entre situações diferentes, modelos abstratos que nos auxiliam na construção histórica das “raízes” do Brasil. A ética do aventureiro é pautada em ignorar fronteiras, na amplitude do mundo, nas ações que levem a recompensas imediatas e no não reconhecimento dos obstáculos a serem ultrapassados, pois o objetivo final é o mais importante. Em contrapartida, a ética do trabalhador se baseia primeiramente na dificuldade a vencer, não no triunfo a ser alcançado, o que gera ações mais seguras. A plasticidade social é uma característica concernente aos portugueses, entendida como capacidade de adaptação ao meio americano – tendo em vista que a tendência aventureira dos lusitanos foi o fator que os levou à expansão no início da Modernidade, mesmo funcionando “com desleixo e certo abandono”. Nesse sentido, a própria lavoura de cana seria uma forma de ocupação aventureira, não correspondendo a América Portuguesa a uma “civilização tipicamente agrícola”, pois esta não era a finalidade, na visão de Sérgio Buarque.
Esse espírito aventureiro lusitano pode ser considerado positivo quando em comparação à experiência holandesa, pois manifestou grande adaptabilidade, enquanto os europeus dos Países Baixos demonstraram todo um trabalho metódico e coordenado, uma religião que não era universalista como a Igreja Católica e o próprio orgulho de raça, que acabaram por demonstrar a falta de plasticidade tão comum aos aventureiros portugueses. Estes eram motivados pela ânsia de prosperidade, títulos, posições e riquezas fáceis (o que comprova o que foi dito anteriormente, sobre a questão da frouxidão da estrutura social). Além disso, havia a carência do orgulho de raça, já que em Portugal o povo era mestiço, devido à grande quantidade de escravos africanos na época das Descobertas.
Mais uma vez Sérgio Buarque acerta em estabelecer uma tipologia dicotômica, desta vez opondo o rural e o urbano. No terceiro capítulo de Raízes do Brasil, a paisagem natural é associada ao predomínio da fazenda sobre a cidade, sendo esta utilizada apenas para as ocasiões especiais, como festas e solenidades as quais os ricos fazendeiros não podiam deixar de comparecer – a cidade como um apêndice da fazenda. Nesse sentido, a fazenda pode ser compreendida como o lugar da nobreza, onde são realizadas as atividades diárias, o que se faz supor um ruralismo extremo, na medida em que as cidades se encontram quase vazias. A “herança rural” aparece associada à agricultura, e esta associada à escravidão – tanto que, e isso é retomado com maior veemência posteriormente, extinguindo-se o trabalho compulsório, a vida rural entra em crise, cedendo espaço ao crescimento dos centros urbanos.
Esse modo de vida concernente à fazenda é também capaz de gerar intelectuais e políticos, atualmente associados logo à cidade. Há uma valorização exacerbada do “talento”, isto é, do movimento intelectual, do trabalho mental ligado à inteligência que não se relaciona, de forma alguma, ao labéu do trabalho manual, o que traz aos grupos rurais dominantes uma aura de nobreza. Enfim, a família rural é baseada num sistema patriarcal tradicionalista, em que os vínculos biológicos e afetivos unem o chefe, descendentes, agregados e afins, traduzindo-se até mesmo num modelo para a vida política, nas relações entre governantes e súditos – visto que a autoridade do proprietário não podia sofrer réplica.
Se num primeiro momento a cultura ibérica é tomada de uma forma geral por Sérgio Buarque de Holanda, com características gerais que seriam adaptadas na América, o que se observa em “O semeador e o ladrilhador” é justamente a diferenciação entre o que é português e o que é espanhol. Utilizando-se mais uma vez de uma dualidade pautada no tipo ideal de Max Weber, o autor de Raízes do Brasil utiliza a cidade como fio condutor deste capítulo central, sendo ela um instrumento de dominação, fundada para fazer presente a figura da metrópole, bem como a centralização do poder nas mãos desta. Nesse sentido, o espanhol é denominado “ladrilhador”, pelo seu zelo urbanístico baseado na razão, na uniformidade e simetria, além da predominância da linha reta, com preferência às regiões internas. Algo que vale apena ressaltar é que os espanhóis buscavam constituir no Novo Mundo o Velho Mundo, o que nos ajuda a compreender o significado de cidades bem estruturadas.
Já os portugueses estabeleceram uma política de feitoria, “semeadores” de cidades irregulares, crescidas e fixadas sem controle, próximas ao litoral (demonstrando o seu caráter mercantil, devido à facilidade de escoamento de seus produtos), movidos pela rotina das experiências pelas quais se guiavam. São cidades que crescem verticalmente e que possuem um caráter altamente imediatista, o que comprova o espírito aventureiro relativo aos lusitanos, quando estes têm em mente apenas aquilo que deve ser alcançado e não relevando os obstáculos, marcando potencialmente uma diferença em relação aos espanhóis, mais visionários e renovadores da realidade que se apresentava na América.
Voltando sua atenção para uma análise mais psicológica e, novamente, interessado no tipo ideal weberiano, Sérgio Buarque de Holanda descreve o “homem cordial”, expressão de Ribeiro Couto, culminando num dos momentos mais importantes deRaízes do Brasil. O homem cordial poderia ser caracterizado genericamente como moldado pela estrutura familiar que, conseqüentemente, gera relações de simpatia e afeto e repulsa por relações impessoais. A cordialidade nega a polidez (esta só é necessária em algumas ocasiões) e almeja a vida em sociedade, pois vê na individualidade (pregada pela pedagogia moderna, ascendida em decorrência da urbanização, que possui virtudes antifamiliares) um grande pavor, tendo em vista a predominância da família tradicional brasileira, confrontada cada vez mais pela sociedade urbana de tipo moderno.
O “homem cordial” é um tipo ideal que não tem necessariamente em seu bojo a bondade, mas pressupõe comportamentos de caráter afetivo, manifestados até mesmo na religião, algo facilmente identificável no tratamento dos santos, em que estes são vistos como próximos e amigáveis, culminando numa aproximação exacerbada que traz à tona ritos afrouxados e humanizados. A cordialidade na política gera um patrimonialismo em que não há distinção do domínio público e privado, sendo a escolha de funcionários pelo empregador pautado fortemente pelas relações pessoais.
Mas eis que novos tempos se levantam, principalmente depois da vinda da família real, fato que revela um choque com os paradigmas coloniais. Os pressupostos concernentes ao homem cordial não são considerados positivos se tratados num contexto de ordem coletiva, cada vez mais suprimidos. Existe uma personalidade individual que prega a satisfação com o saber aparente, com fim em si mesmo, traduzido na própria satisfação do indivíduo, o que traz à tona o caráter secundário da obra produzida. Disso decorre que os indivíduos mudam de atividade com uma freqüência elevada, e esse é o próprio sentido do bacharelismo, baseado no prestígio e na independência individual que as profissões liberais proporcionam, resumido a um saber que apenas viabiliza a vontade individual – caracterizado pelo exibicionismo e falta de aplicação que, na visão de Sérgio Buarque, levou ao bom êxito dos positivistas no Brasil, com dogmas indiscutíveis e idéias inaplicáveis. A isso está relacionada a crise dos padrões tradicionais agrários, e a democracia trazida para o Brasil, na visão de Holanda, deve ser encarada como um mal-entendido, já que os movimentos reformadores da sociedade possuíram um caráter ditado pelos grupos dominantes. O autor de Raízes do Brasil acredita que a doutrina liberal-democrática confronta-se com a cordialidade, mais compatível com a polidez. Na verdade, tudo aponta para um novo estado de coisas, na perspectiva do autor.
Enfim, o iberismo cede espaço lentamente ao americanismo, na medida em que toda aquela cultura adaptada da Europa entra em colapso. A ordem tradicional, baseada no ruralismo (grande influência dos centros rurais) e na família patriarcal, cede espaço à cidade e sua cultura, numa transformação que se caracteriza também pela passagem da cana-de-açúcar ao café, o que marca o “aniquilamento das raízes ibéricas” e o nascimento de um novo estilo, o americano propriamente dito. Nesse sentido, a Abolição surge como um marco divisório, em que começa de fato a fragmentação da sociedade agrária, que dá início à “nossa revolução”.
O historiador Sérgio Buarque de Holanda
Resumindo, Raízes do Brasil representa um marco historiográfico quando se considera a forma como a história brasileira era contada na época de sua publicação. Explicitando conceituações baseadas em contrastes dicotômicos, muitas vezes transbordantes de uma teoria weberiana, Sérgio Buarque não se mostrou preso a um paradigma de análise, o que em si já é uma proeza, numa época em que os autores contemporâneos a Holanda se preocupavam demais apenas com questões de natureza biológica, de “raça”. O autor foi além do habitual, procurando se munir de uma análise psicológica (lembremos do “homem cordial”, do “aventureiro” e do “trabalhador”) para construir a formação de nossa sociedade nos moldes da história social, desde os traços que foram adaptados da cultura ibérica no Período Colonial, até a compreensão daquele momento histórico que era vivido na primeira metade do século XX, revelando, ao mesmo tempo, uma aura antiga e uma completamente atual, permanente até hoje, em pleno início do século XXI.
Fonte
estudosdehistoria.wordpress.com

[1] IBAÑEZ, José Javier Ruiz; VINCENT, Bernard. Uma Sociedad entre estabilidad y conflicto. IN: Historia de España. 3 milenio. Los siglos XVI – XVII. Politica e sociedad. Madrid: Sintesis, 2007, p. 65-107.
[2] SCHWARTZ, Stuart B. Segredos Internos – engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550 – 1835. SP: Companhia das Letras/CNPQ, 1988; cap. 9 “Uma sociedade escravista colonial”, p. 209-223.
[3] Entendamos por tipo ideal um modelo abstrato que, quando usado como padrão de comparação, permite-nos observar aspectos do mundo real de uma forma mais clara e mais sistemática. A falta de aderência entre tipos ideais e o mundo real não cria problema, contudo, pois não constitui objetivo dos tipos ideais descrever ou explicar o mundo: em vez disso, fornece-nos pontos de comparação a partir dos quais podemos fazer nossas observações. É importante notar que tipos ideais são ideais apenas no sentido em que são puros e abstratos, não no sentido mais comum de serem desejáveis ou bons. Dicionário de Sociologia – Guia Prático de Linguagem Sociológica – Allan G Johnson. Jorge Zahar Editor, 1995 RJ.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Francis Bacon: pensando a ciência


Francis Bacon (1561-1626) foi um filósofo natural Inglês que usou o raciocínio indutivo, na tentativa de melhorar os erros cometidos por Aristóteles, e é conhecido por promover o método (científico). Como Bacon nunca realmente fez alguma descoberta experimental, nem tinha um laboratório para trabalhar, por que ele foi dado o máximo de crédito e é considerado um dos mais proeminentes filósofos naturais?

O título da obra de Bacon, Novum Organum (1620), é baseada na obra de Aristóteles sobre lógica. Organum  é traduzido em Português como o instrumento do pensamento racional, Bacon propôs um novo estilo de raciocínio para substituir o trabalho de Aristóteles. A filosofia aristotélica foi baseada em um conjunto de regras que regeram a coerência entre uma conclusão e uma fundação que foi aceito inquestionavelmente como verdade, a filosofia de Bacon era o oposto. Antes e durante o tempo de Bacon, existiram filosofias que estavam enraizadas na fé pura e não tanto na razão, essas filosofias ultrapassadas foram promovidas pela igreja. Seu estilo foi investigar os fundamentos do trabalho com base na teoria científica de Aristóteles, seu objetivo era colocar a natureza à prova.

A abordagem indutiva

Bacon é mais comumente conhecido por defender a abordagem indutiva para a ciência. Ele argumentou que tinha havido progressos limitados ao longo dos tempos devido ao fato de que os filósofos escolásticos alteraram as suas conclusões sobre a natureza para satisfazer as exigências da escritura. Bacon delineou os princípios do método de raciocínio indutivo, enquanto o termo "método" remonta aos tempos de Aristóteles, Bacon constituiu um avanço na abordagem da ciência. Ele denunciou os pensadores escolásticos de seu apego à doutrina aristotélica, que ele sentia que havia um impedimento ao pensamento independente e a aquisição de novas ideias sobre a natureza. Ele argumentou que, para melhorar a qualidade da vida humana, o avanço da ciência não deve depender de textos antigos, e que as autoridades de idade devem ser consideradas redundantes e desnecessárias. Ele acreditava que o conhecimento deve ser perseguido de uma maneira nova e organizada. Sua ideia de uma abordagem indutiva incluiu a observação cuidadosa da natureza com a acumulação sistemática de dados para recorrer. Novas leis foram logo criadas com base no conhecimento dos resultados específicos através de testes e experimentação. Qualquer filósofo natural que aderiu a este método não baseou suas descobertas em mitos fora do prazo de validade, mas, ao invés disso, basearam seus resultados em fatos observáveis. Foi esse tipo de teoria materialista que trouxe as grandes descobertas de Copérnico e Galileu. Bacon podia ver que o único conhecimento de grande importância para a humanidade foi empiricamente enraizado no mundo natural, e que um sistema claro de investigação científica poderia garantir o domínio sobre o mundo material.

Bacon foi um dos primeiros a apreciar o valor da nova ciência para a vida humana. Ele afirmou que o conhecimento deve ajudar a utilizar a natureza para proveito humano e deve melhorar a qualidade de vida através do avanço do comércio, indústria e agricultura. Ele acreditava que o conhecimento é poder, e ele pediu ao governo para criar instituições científicas para incentivar o avanço da tecnologia e das artes mecânicas.
 
Em seu livro "Escala do entendimento" (1605), Bacon propôs um método científico através da experimentação empírica indutiva. Ele acreditava que os experimentos devem ser cuidadosamente registrados para que os resultados sejam fieis e possam ser repetidos. Ele defendeu o mundo da ciência sobre o mundo secreto e misterioso da magia. Ele ressaltou o que o impacto prático dessa descoberta científica englobava e até mesmo escreveu uma obra utópica na qual a ciência foi a salvadora do futuro da humanidade. Embora Bacon não fosse um investigador científico a si mesmo, ele usou a influência política para apoiar os projetos científicos com o uso do raciocínio indutivo, na Inglaterra.

Sua filosofia foi contrastada pela posição assumida da Igreja Católica na época. A Igreja tinha tomado a ofensiva em preservar o núcleo de seu patrimônio, e esta nova ciência parecia ser um ato de heresia. Desde que Nicolau Copérnico (1473-1543) publicou seus pontos de vista sobre um universo heliocêntrico, um novo ceticismo surgiu entre os intelectuais europeus. A cada ano novas teorias competiram com as antigas e várias explicações contraditórias sobre os fenômenos mais comuns foram avançadas e debatidas. O julgamento de Galileu Galilei (1564-1642) desacelerou o ritmo da investigação científica nos países europeus católicos e causou conflito entre autoridade e conhecimento. Os céticos concluíram que nada se sabe e nada era cognoscível. Esta nova perspectiva ultrajante inevitavelmente levou à mais chocante de todas as ideias possíveis "o ateísmo". No entanto, alguns dos principais cientistas já viam uma contradição entre os seus estudos e sua fé. Em meados do século, os ataques à Igreja foram aumentando e alguns culparam a nova ciência da razão indutiva por esses ataques filosóficos.


Fonte:

afilosofia.com.br

periodicos.ufsc.br

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Simone de Beauvoir e a filosofia



Em 1857, a sociedade francesa escandalizou-se com a publicação de uma novela dramática de Gustave Flaubert. Tratava-se de um relato ficcional, escrito com crueza e realismo, sobre a esposa de um médico rural, Ema Bovary, que depois de ter praticado adultério se suicidara. Livro que serviu de velada condenação ao comportamento feminino e das forças que se combinavam por desgraçar a mulher. Quase um século depois, em 1949, a mesma sociedade foi novamente abalada, desta vez por um contundente ensaio publicado por uma das mais famosas escritoras do país: Simone de Beauvoir. O título era O Segundo Sexo, livro que desde então correu o mundo e contribuiu definitivamente para a emancipação da mulher contemporânea.

Simone de Beauvoir, todavia, não deve ser entendia como um fenômeno exclusivo da sua época, do século XX, o centênio que mais estendeu cidadania e direitos às mulheres em geral. Ao contrário, era herdeira de uma tradição de engajamento nas causas femininas que se originava dos tempos da Revolução Francesa de 1789, quando mulheres como Theroigine de Méricourt, fundara o clube misto dosAmigos da Lei, em 1790, e Olympe de Gouges, redigira a Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne, de 1791, documento histórico primeiro a reclamar abertamente os direitos iguais para homens e mulheres.

Exigência que foi ainda mais reforçada pela exuberante Flora Tristan, militante socialista, autora de Peregrinações de uma paria, de 1837, e do União Operária, de 1843, defensora da igualdade de operários e operárias, luta que teve continuidade na formação dos Batalhões Femininos da República que saíram às ruas da França na defesa do cumprimento da Lei Ferry, de 1881, que determinava ao acesso das mulheres ao ensino público.

Mesmo com esse ativismo militante, as mulheres francesas chegaram tardiamente à cidadania, apenas consagrada na constituição de 1946. Muito depois das americanas, inglesas, alemãs e russas que alcançaram o direito de voto bem antes delas, ao redor de 1918.

Com total independência de Sartre, Simone dedicou-se por alguns anos do após-guerra a uma intensa e detalhada pesquisa em bibliotecas recolhendo material para o seu ensaio intitulado Le Deuxième Sexe, O Segundo Sexo, dois volumes de mil páginas aparecido em maio de 1949, e que lhe deu projeção quase que universal. A intenção dela era demonstrar que apesar da enorme evolução ocorrida ao longo do século XX, perdurava sobre o sexo feminino uma posição de subordinação e inferioridade que bem poucos aceitavam em denunciar ou condenar. Inclusive as próprias mulheres.

O que lhe valeu, logo que a obra chegou ao público, ser alvo de críticas que explodiram de todos os lados, taxando-a de "sufragete da sexualidade" e de "amazonas existencialista". Ou ainda de ter escrito um "manual de egoísmo erótico" e de ter exposto "audaciosas pornografias" que ostensivamente manifestavam o "egotismo sexual" dela.

Não importava a época ou o período histórico, fosse o antigo ou o moderno, para Simone permanecia a idéia do "eterno feminino", isto é, um conjunto de características imutáveis que eram impostas às mulheres pelo mundo masculino. Elas variavam em atribuir a elas permanentes "pendores naturais" para o matrimônio e a maternidade, até os abertamente ofensivos que as acusavam de desempenharem papéis menos louváveis que punham os homens a perder, fossem como sedutoras, feiticeiras ou bruxas.

Denunciou a existência da distinção feita entre o ser feminino, situação biogenética determinada pela natureza, e a mulher, uma construção idealizada de cada época histórica que, por assim dizer, "escalpe" uma mulher adequada aos ideais e interesses masculinos. Em geral pouco concedendo dela ir além de ser esposa e mãe e nada mais.

Daí o sentido da sua célebre afirmação que correu o mundo desde então: "Não nascemos, mas sim nos tornamos mulher". Para ela era evidente a necessidade de superar o "eterno feminino", visão que engessava a mulher, para a "condição feminina", momento de denúncia que mostrava a situação de opressão que elas viviam há séculos e que apesar dos avanços da sociedade moderna ainda estavam longe de serem abolidos.

Simone de fato, especialmente no primeiro volume do seu ensaio, que é acima de tudo um magnífico estudo sócio-antropológico e histórico da situação feminina através dos tempos, fez um minucioso requisitório de tudo aquilo que ao longo da história assacaram contra elas, frases dos mais diversos escritores, poetas e filósofos, desde os gregos e romanos.
De Hesíodo ("quem se confia a uma mulher, confia-se a um ladrão"), passando pelo bispo Bossuet ("Eva não passava de uma parcela de Adão e de uma espécie de diminutivo"), até os escritores católicos do século XX, demonstrando como, ao longo da história, significativos nomes do universo masculino cerravam fileiras na tarefa de deprecia-las. Até mesmo Jean-Jacques Rousseau, homem dado à mansidão e ao culto à bondade natural, reiterou que a instrução delas "deve ser relativa ao homem. A mulher é feita para ceder ao homem e suportar-lhe as injustiças".

Numa passagem famosa ela então registrou: "Os dois sexos jamais partilharam o mundo da igualdade, e hoje em dia ainda, se bem que a condição evoluiu, a mulher ainda fica muito atrás. Praticamente em nenhum país a sua posição legal é idêntica a do homem, havendo sempre uma desvantagem considerável. Ainda que os seus direitos sejam abstratamente reconhecidos, um longo hábito impede que eles se encontrem nos meios e nas expressões concretas. Economicamente, homens e mulheres constituem praticamente duas castas(...) os primeiros encontram-se em situações mais vantajosas, com os salários mais elevados, com maiores chances sobre suas concorrentes de data mais recente. Além dos poderes concretos que eles possuem, eles encontram-se revestidos de um prestígio que desde a educação infantil mantém a tradição. As atribuições do casamento assomam-se bem mais pesadas para a mulher do que para o homem(...); as servidões da maternidade reduziram-se pelo uso confessado, ou ainda clandestino, do controle dos nascimentos, mas a prática não se expandiu universalmente nem foi rigorosamente aplicada. Os cuidados das crianças e as exigências do fogão ainda são assumidas quase que exclusivamente pela mulher. Ainda que as elas trabalhem nas usinas, nos escritórios, nas faculdades, continuam a considerar que para elas o casamento é uma carreira das mais honoráveis o que as dispensa de qualquer outra participação na vida coletiva."


Fonte:

educaterra.com.br

DE BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: Fatos e Mitos. 8.ed.. Trad. Sergio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. v. 1.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Até quando?

Estudantes chegam na escola para o primeiro dia de aula e nem suspeitam que os colegas de classe são, realmente, atores contratados para um projeto científico. A aula começa e, alguns minutos depois, alguém de fora grita que há um incêndio e, logo em seguida, o alarme é acionado. Os atores continuam inertes, fingindo que nada acontece e continuam no local. Assim como os atores, as “cobaias” permanecem inertes: “estão contaminadas pelo clima de que nada de grave está acontecendo.”
Em outro contexto, com outras “cobaias”, o mesmo alarme de “incêndio” é aplicado. Agora, os atores entram em pânico, que logo influencia as “cobaias”. E todos, desesperados, abandonam desesperadamente seus lápis e fogem do “fogo”.
Ao lembrar dessa experiência fui conduzido a pensar sobre  a noção de “comportamento de manada” (que acabei tendo que estudar em alguns artigos acadêmicos) e do exemplo da escritora sul-africana Ingrid Jonker, que viveu na África do Sul dos anos 1960, época em que a opressão do Apartheid era ainda ocultada pela harmonia vendida por quem tentava manter a ordem vigente. “Ainda que a ordem vigente fosse separar brancos de negros, e manter estes à míngua (e à distância) de toda sorte de direitos.”
Se tivesse seguido a “manada”, na vida e na escrita, possivelmente Ingrid não tivesse sido homenageada por Nelson Mandela, como uma das grandes referências da libertação da África do Sul. Ela não precisou pegar em armas, mas transgredir, por meio da literatura, as jaulas que a prendiam em sua época. Na visão de Ingrid, autora praticamente desconhecida no Brasil, esta era uma missão dupla: seu pai era um político conservador que via a exclusão dos negros como algo necessário. Era também responsável pelo departamento de censura do governo. Escrever para mudar o mundo não era mais desafiador para ela do que convencer o pai sobre as atrocidades de sua época. Seu primeiro livro é dedicado ao pai, que a rejeita. “Para ele, a filha era sua própria negação.”
Seriam apenas palavras contra um país tomado por leis desumanas? Absolutamente, não! Logo, as palavras se espalharam pelos guetos, grupos de intelectuais, e pelo mundo que começava a enxergar a realidade. Alguém ali avisava que um país estava desmoronando.
Lembrei de uma formatura, da minha infância. Me recordo de ter jurado algo como: “eu prometo ser honesto, honrar os mais velhos, manter a ordem e o respeito, cuidar dos mais novos” e uma sequência de blábláblá que toda a classe repetia, como cordeirinhos. Apenas crianças, mas que assumiam o compromisso de que, “acontecesse o que acontecesse, jamais romperíamos a ordem que nos acabava de ser entregue.”
A pura reprodução de seres dóceis, “incapazes” de realizar mudanças em seu próprio tempo e espaço (o “pacato cidadão” do Skank). Tudo o que é contrário é rotulado de desobediência ou anarquia.
Uma garota chamada Julia me disse certa vez que “uma sutil censura se impõe quando você expressa sua opinião sobre alguma coisa mais profunda. Todos olham para o chão, ou torto ou simplesmente se calam. Se por um lado existe o imbecil politicamente incorreto, por outro há uma legião de hipócritas politicamente corretos”, e ela tem razão. Apesar disso, eu não preciso de uma “manada” para agir. Não preciso do “exemplo” dos “atores” sociais para poder correr quando tudo estiver pegando fogo. Eu nem preciso da droga do alarme de incêndio. Se a minha “arma” for uma caneta e um papel eu vou procurar usar da melhor forma possível e tentarei “convencer”, com muito amor, o meu pai a questionar a sociedade em que vivemos.

Não me rotulo como um idealista, revolucionário ou qualquer coisa do tipo. Não preciso disso. Sou apenas um cara inconformado com certas coisas. E que, apesar dessas “certas coisas” erradas, não desistiu de sonhar com uma humanidade menos desumana. Concordo com aquilo que canta “O Pensador, Gabriel”: “Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente. A gente muda o mundo na mudança da mente. E quando a mente muda a gente anda pra frente; e quando a gente manda ninguém manda na gente! Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura. Na mudança de postura a gente fica mais seguro. Na mudança do presente a gente molda o futuro!” Um pouco de poesia urbana é sempre bom pra ajudar a gente a pensar diferente da "manada".

*Indico o filme "Borboletas Negras",  dirigido por Paula von der Oest, que conta a história de Ingrid Jonker (interpretada por Carice van Houten).

sábado, 5 de outubro de 2013

Humanos "direitos"

De fato, como escreveu Matheus Pichonelli para a Carta Capital, a cena do Capitão Nascimento, com o coturno na garganta do traficante “Baiano”, entregando a escopeta nas mãos do Soldado Mathias estabelecendo a execução do bandido, teve como efeito a euforia generalizada nas salas de cinema espalhadas pelo país. Como num estádio lotado em final de campeonato, “houve quem se levantasse e aplaudisse a cena de pé, algo inusitado para uma sessão de cinema”. O mesmo país que se colocava de pé pelos direitos humanos para humanos direitos estava de braços cruzados.

O diretor da produção cinematográfica, José Padilha, precisou “desenhar”, em Tropa de Elite 2, “que aquela escopeta estava voltada, na verdade, para o rosto do povo brasileiro. Entretanto, parece que mesmo diante do “desenho” o povo se demonstrou incapaz de refletir e “entender que a tortura, os sacos plásticos e a justiça por determinação própria eram a condenação, e não a redenção, de um país de tragédias cotidianas”. Nas duas produções, todos estavam, de alguma forma, envolvidos na criminalidade – corruptos e corruptores, produtores e consumidores, eleitos e eleitores, eu e você – mas só alguns eram executados.

O saco de tortura, a bofetada na cara, o tiro (pra matar ou intimidar); todos são símbolos da violação dos nossos direitos no cotidiano. Respire esse oxigênio cada vez mais irrespirável, transite pelas vias de trânsito intransitáveis, vá às compras e seja assaltado (pelos bandidos de ofício, ou pelos disfarçados), se alimente desse “lixo” caro que é colocado nas prateleiras dos supermercados. Seja programado pela mídia que ao invés de informar, tem mais compromisso com o deformar. O nome disso é tortura!

“O apelo à tortura como consequência da segurança é, portanto, a confissão e a aceitação de uma incapacidade ancestral.” Em vez de segurança, o que ela produz é pânico: aceitamos que as autoridades se comportem não como agentes públicos a nos proteger de símios ensandecidos com ossos na mão, mas exatamente igual aos animais retratados no filme e dentro da nossa rotina.

“Nesses termos, o estado completo de vulnerabilidade está criado (precisamente em 14 de julho de 2013, foi a vez de Amarildo). Amanhã pode ser eu. Ou você. Enquanto aplaudimos as soluções arbitrárias, que aniquilam tanto o bandido como o inocente, é a sorte, e não a lei, o elemento a impedir que um animal armado (fardado ou não) com arma na mão, pelo simples fato de acordar num belo dia de mau humor, coloque nossas cabeças em um saco plástico e nos sufoque até a morte.” Eu me refiro ao Estado, enquanto produtor de “malignidade”, não aos cidadãos que fazem parte dele. Eu me refiro ao empresário “predador”, não aos solidários. Eu me refiro ao comunicador imbecil (sem aspas), não ao comunicador social. Eu me refiro ao vândalo, não ao cidadão que luta pelos seus direitos.  Estou falando de mim e estou falando de você!